Seca no semiárido baiano

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Prezado Cidadão,

Inicialmente, pela confiança já conquistada por meio dos nossos diálogos, pedimos licença para, a partir de agora, dirigirmo-nos a você como Amigo do Brasil. Nesse sentido, reiteramos o nosso firme propósito de continuar aclarando os fatos que mereçam a nossa atenção. Desta vez, trazemos o problema da seca no semiárido baiano para debater com você.

Com base nas informações que circulam, nacionalmente, temos certeza de que você não está muito à vontade com a sede e com a fome das pessoas que moram nas áreas mais afetadas pela seca. Por acreditar nisso, decidimos movimentar a energia – amor – que pode nos mudar do estado de expectadores para a condição de protagonistas solidários à dor desses irmãos.

Em sintonia com isso, e com a proposta de despertar a sua solidariedade, informamos que a ABRA, diante desse problema, posiciona-se pela conclusão de que devemos ajudar essas pessoas, e é por isso que participamos da Campanha Diga Não à Seca de Solidariedade!

Embora muito válida essa iniciativa, sabemos que esse problema não pode ser aliviado unicamente com esta campanha. Por isso, sentimos que, paralelamente a essa atividade, outro movimento clama para ser conduzido, qual seja, a identificação e prevenção da causa que expande a condição de miséria nessa região em razão dos efeitos da seca.  Possivelmente, você partilhe da mesma inquietação!

Recentemente, temos nos aproximado desse problema e de pessoas que conhecem bem os seus contornos. Com isso, surgiram estes objetivos: primeiro, apaziguar o nosso incômodo diante da redução da dignidade humana das pessoas que estão convivendo com a seca; segundo, para entendê-lo melhor e repassar a você a razão de ser (negativa) do crescimento dessa condição desumana que ocorre num país tão rico; e, terceiro, agora contando com a sua reflexão e sugestão, eleger ações que possam aliviar a fome e a sede das pessoas mais necessitadas, e, simultaneamente, promover ações que evitem o crescimento dos efeitos drásticos da seca sobre as comunidades carentes da região do semiárido baiano.

O fato é que, hoje, em razão dos efeitos da seca, mais da metade dos municípios do Estado da Bahia (250) encontra-se em estado de emergência, dois decretaram estado de calamidade pública. Com certeza, você sabe que a estiagem faz parte da realidade do semiárido brasileiro desde o período do Império, mas esse dado histórico, pelo visto, tem sido esquecido pelos gestores políticos. Isso significa que poucas e corretas ações políticas têm sido executadas para impulsionar a convivência digna e harmoniosa dessas pessoas com a sua  região, o que é possível.

Ora, isso não sugere, até para os mais leigos, que a gestão focada na redução dos efeitos da seca na maioria desses municípios tem sido inexistente. Do contrário, por mais difícil que fosse suplantar uma estiagem tão longa, a decretação de emergência e/ou de calamidade pública não seria tão abrangente dessa forma. Podemos concluir, portanto, que algo está muito errado, até porque, todos sabem que o semiárido toma 57% do território baiano.

A verdade é que, agora, do nada, em pleno ano de eleição, presenciamos um conjunto de fatores que, no mínimo, deve receber a nossa reflexão: a) vários municípios decretando estados de emergência e calamidade pública; b) alguns recursos estaduais e vários recursos federais (adutoras do rio São Francisco) sendo liberados às pressas; e c) o surgimento de salvadores (políticos) que resolverão o problema – fome e sede – causado pela seca, isso justamente em ano de eleições municipais.

Agora, para o que realmente interessa a este debate, você deve saber que as palavras de ordem, sustentabilidade e adaptabilidade – as que podem amenizar os efeitos da seca no semiárido baiano –, são sufocadas por ações políticas desprovidas de técnica e, em muitos municípios, por condutas antiéticas. A carência de técnica ocorre, por exemplo, pela priorização de cultivos, tais como, banana, cebola, beterraba, pinha e cenoura, plantações que consomem mais água do que o cultivo do feijão. No que diz respeito especificamente à região de Irecê-Ba , os mais atentos sabem que esta região há 15 anos foi considerada a terra do feijão, porém esse reconhecimento perdeu-se em meio a ações políticas que insistem em remediar os danos provocados pela seca em vez de preveni-los.

Com relação à conduta antiética, sabemos que ela emerge não única, mas principalmente da carência de articulação conjunta das prefeituras para enfrentar os efeitos da seca de forma preventiva e, em alguns casos, pelo desvio dos recursos públicos. Isso tem crescido porque boa parte das pessoas que tem o poder de monitorar e fiscalizar não o faz.

O fato é que os gestores têm que administrar esses municípios com foco na adaptação dessas pessoas à sua região com justaposição à natureza local. Para isso, eles devem promover mecanismos de sustentabilidade que melhor se amoldem à potencialidade regional. Aliás, a discussão acerca da sustentabilidade, para suavizar a adaptação dessas pessoas, deve nascer não apenas de uma decisão política; deve antes, ser planejada de forma interdisciplinar de modo a considerar, sobretudo, a contribuição da comunidade, do assistente social, do agrônomo, do engenheiro florestal, do geólogo, do sociólogo, do biólogo e de outros profissionais. A tecnologia já em curso, promovida com o apoio das Universidades, da Emater e da Emprapa, deve ser aplicada conjuntamente para busca de soluções.

Também não nos é novidade que a sustentabilidade e a adaptabilidade podem ser alcançadas se, ainda, forem implantadas campanhas de educação ambiental como forma de investimento no equilíbrio do ecossistema que compõe o bioma caatinga. Isso, naturalmente, agrega-se ao princípio do “agir localmente pensando globalmente”.

Até existem programas executados pelo governo federal, tais como, cisternas, segunda água e cisternas nas escolas, que têm sido indispensáveis para o convívio do sertanejo com a caatinga, mas não são suficientes. E sabe por quê? Porque eles estão no plano dos efeitos, até visam a adaptabilidade, mas não são projetos da essência da sustentabilidade. Um exemplo de remédio que apenas cria dependência é a imagem do carro-pipa, que nos remete a algo surreal, inconcebível hoje como forma satisfatória de enfrentar os efeitos da seca no semiárido. Isso reforça a nossa a defesa de medidas preventivas.

Consequentemente, a inobservância dos gestores com os efeitos da seca impõe ao Sertanejo uma limitação no acesso aos recursos mais básicos, água e  alimentos. Não é difícil concluir que a saúde debilitada dessas pessoas surge dessa subalimentação como efeito de segundo estágio.

Outro efeito devastador, terceiro estágio, para o Sertanejo é ver-se obrigado a abandonar a sua moradia, os seus familiares e a sua cultura, isso em busca de sorte melhor. Todavia, ele assim age não porque gostaria ou por planejamento, mas o faz por imposição dum sofrimento que se repete diariamente.

Para concluir, é importante que saibamos que existem pessoas neste momento que não reúnem forças para se defender dos efeitos da seca, pessoas que estão à margem da proteção estatal, pessoas que nem sequer sabem que mais são vítimas da incompetência e desonestidade de vários gestores políticos do que da própria seca.

Compete a mim e a você fiscalizar quais dos candidatos trazem nas suas propostas de campanha o compromisso com a redução dos efeitos da seca no semiárido. Mais do que isso, somos responsáveis pela forma como pretendem executar, identificar se eles estão cientes da imperativa necessidade de promover a sustentabilidade com o objetivo de efetivar a adaptação dos nossos irmãos.

Podemos ser solidários com os nossos irmãos atuando em duas frentes, arrecadando alimentos e promovendo ações que se preocupem com a sustentabilidade e com a adaptabilidade. Participe, contribua com a causa!

Imagem: Silvano Jesus

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